Abri mão de algumas pessoas. Chega uma hora em que, de tanto a pessoa reclamar da própria vida, acaba desgastando todas as amizades que possui. Foi o que aconteceu com um ser infeliz aí. Não sou obrigada a ser psicóloga 24 horas de uma pessoa que cria 99% dos problemas que tem. O mesmo ser infeliz, aliás, descontente com a eficácia da irritação causada pelos seus próprios feitos, resolveu desenvolver um endeusamento doentio sobre (pasmem) eu mesma.

Pois é, quem diria. Eu, doentiamente idolatrada. Tragicômico. Não me importaria tanto se ele não fosse tão assíduo no ofício de ser irritantemente pegajoso e insistente.

Mousse Pilgrim Ribeiro de Pégaso (nome completo do ser irritante; logo explico o porquê do pseudônimo), por ter sido criado num background familiar não muito caloroso, desenvolveu uma carência afetiva enorme, quase que insuprível. Friso: este não é o problema. O problema é ele depositar em mim todas as esperanças de resgatar os amores que não teve (que incluem storge, philia e eros), quando na verdade, tudo o que sinto por ele é um leve toque de empatia com uma generosa dose de pena.

Nos conhecemos em 2009, e ele já era naturalmente esquisito, principalmente comigo. Na época, lembro de ter apresentado um trabalho sobre Inteligência Artificial. Após a aula, ele veio até mim, elogiando a apresentação. “Sua apresentação foi ótima, você tem MSN?”

Passamos a conversar frequentemente, e pensei ter descoberto uma amizade intelectualmente interessante. Ele elogiou a minha escrita e disse que eu deveria ter um blog. Enviei-lhe o link dessa porcaria de blog, e ele passou a lê-lo regularmente.

Mousse nunca foi totalmente sincero comigo; digo, ele nunca foi direto ao ponto. Sempre deu indiretas e fugia do assunto rapidamente. Além disso, ele já chegou a se envolver com outras garotas. Realmente, nunca dei atenção a ele. Ele era apenas um amigo e o tratava como tal.

Sempre que ele se envolvia com uma garota, ele me dizia: “Ela é como você.” E fazia um discurso quase que interminável sobre as características em comum que eu e as “Senhoritas Mousse” tínhamos (ou melhor, que ele achava ter). Sim, senhoritas, no plural. De fato, não apenas ele contabilizava essas características em TODAS as garotas com as quais ele ficava, como também passou a fazer comparações injustas entre eu e todas elas a partir de uns tempos pra cá. “Ela não tem jeito de Ana”, ele dizia, sobre as garotas. Que “jeito de Ana”, rapaz? Defina isso!

Foi aqui que ele passou a me ramonar, coisa que ele faz até hoje. Ah, vocês não sabem o que é ramonar? Tsc tsc tsc… Vamos lá.

Ramona Victoria "Rammy" Flowers, conhecem? Sim, a musa inspiradora de Scott Pilgrim. Quem já leu os quadrinhos, assistiu o filme ou simplesmente viu uns gifs aleatórios no Tumblr, sabe que essa criatura nada mais é do que o Edward Cullen dos pseudo-nerds. Ela é simplesmente um fetiche de garotos de visão limitada, que acham que qualquer garota que “fuja dos padrões” é uma semideusa.  “Você é menina e joga videogame, coleciona Matchbox e lê Douglas Adams? OMG, CASA COMIGO!” – Garotos, parem com isso. O mesmo vale para as meninas: não façam dos seus hobbies objetos de fetiche. Esses garotos só existem porque VOCÊS se comportam assim, e vice-versa. Esses jóvi de hoje… Esses jóvi

Você nem sabe quem você é, sua biscate fictícia
Você nem sabe quem você é, sua biscate fictícia

Em suma, amiguinhos, ramonar é ato de endeusar uma mulher, colocá-la em um altar imaginário e passar a agir como se houvesse topado com a Afrodite na esquina – tudo isso porque ela apresenta certos gostos ou hobbies.

Além disso, ele demonstra um ciúme infernal quando menciono o meu BFF (que muitos insistem que é BF, mas isso não convém agora. Uma dica: não é o Helton). Fala mal mesmo só conhecendo de vista, faz comparações desnecessárias… Uma vez, no último ano do Ensino Médio, esse BFF resolveu aparecer no meu horário de entrada do colégio, e me deu uma action figure do Pavel Chekov – que hoje monta na Enterprise da minha prateleira usando o chapéu do Woody.

For Mother Russia!
For Mother Russia!

Quando Mousse viu que entrei na sala de aula portando esta maravilha baratinha, perguntou sobre as origens da mesma.
- Ah, o Chekov! Onde conseguiu?
- O **** me deu!
- E… por que ele te deu?
- Porque ele quis. O amigo é meu, e o presente também.
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Isso o fez ficar quieto por um tempo.

E saindo de 2012 e indo para os dias presentes, Mousse ainda insiste com um vigor que poucos possuem. Agora, amiguinhos, explico o porquê do longo pseudônimo dele.

Pensem bem, pequenos aprendizes. Tomem nota da receita de Mousse Pilgrim Ribeiro de Pégaso! Liguem o liquidificador e batam:

Mousse, de Ranma 1/2:

Ele morre de amores pela Shampoo, que nunca se importou com ele e, ainda por cima, vive de correr atrás do Ranma. Ele sabe que nunca a terá, e mesmo assim, persiste.

"Cara, ela tá tão na sua!"
"Cara, ela tá tão na sua!"

Scott Pilgrim, da HQ homônima:

Esta infeliz criatura fictícia já tinha uma namorada bacana, mas bastou conhecer a Ramona para o mundo dele ter um plot twist.

Oh, Scott. Suas expressões eram bacanas, mas Michael Cera te estragou.
Oh, Scott. Suas expressões eram bacanas, mas Michael Cera te estragou.

Ribeiro, de Fim:

Alguém já leu Fim, da Fernanda Torres? O Ribeiro morria de amores pela Ruth, mulher do Ciro. Era a Vênus dele. Mas, sendo burro e não tendo iniciativa alguma, não fez nada quando a viu e, quando percebeu, Ciro e Ruth já estavam entrelaçados. Casaram, aproveitaram muitos anos de vida sexual ativa, o Ciro fez algumas besteiras, e morreu de câncer. Quando Ciro faleceu, Ribeiro até pensou em abrir o jogo com Ruth, mas, novamente, nada aconteceu.

Sem imagem do Ribeiro, sorry! Fique com um Caco.
Sem imagem do Ribeiro, sorry! Fique com um Caco.

Seiya de Pégaso, de Saint Seiya:

Insistência é o nome do meio desse infeliz. Além de ser filhadaputamente irritante e desprovido de uma personalidade agradável, tudo o que ele faz se resume a berrar do fundo de seus pulmões:

SAOOOOOOORIIIIIIIIIIIII-SAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNN!

E então ele percebeu que era um dos piores personagens principais já criados.
E então ele percebeu que era um dos piores personagens principais já criados.

Batam tudo isso no liquidificador e terão como resultado uma pasta gosmenta, que vai te mandar SMS às 2 da manhã dizendo que está tendo deja vus e que, por mais que você apareça offline, vai te mandar mil mensagens inbox no Facebook perguntando: “Ana?”

Vamos deixar a receita de lado e focar em outro aspecto… Vocês devem estar se perguntando agora: “Ana, vocês dois já tiveram alguma coisa? Um selinho ou algo assim?”

Ôxe! Quem me conhece sabe que não sou de contato físico, a não ser que eu considere muito a pessoa – o que não é o caso do Mousse. Ele já tentou se aproximar e falhou miseravelmente. O máximo de contato físico que tivemos foi um abraço, dos mais fraternais. Não sei quanto a ele, mas eu não senti nada. Foi como abraçar uma árvore: estranho, desnecessário e embaraçoso.

Uma vez estávamos no ônibus lotado às 18h (que situação romântica!). Não tinha onde me segurar, então, estiquei meu braço esquerdo até conseguir me apoiar na parte de cima, que somente os altos conseguem – uma conquista nada fácil para uma pessoa que mede 1,63. Mousse estava do lado e disse, estendendo a mão:
- Você pode se segurar em mim.
- Não precisa, tô bem assim.
Às vezes tenho orgulho desses momentos “OHHH SNAP!”…

E mesmo sem tato algum, Mousse envia frequentemente mensagens dizendo que sente saudades dos “nossos momentos”. Que momentos, rapaz? Os que aconteceram dentro da sua cabeça?

Enfim, acho que por enquanto é só, pessoal. A mensagem principal deste texto vai para os garotos: não ramonem. Mulheres gostam de se sentirem especiais, sim, mas não desse jeito. Tudo tem limite. Uma pessoa não se torna especial por ter um hobbie ou outro. Uma pessoa deve ser especial pelo que ela é, e não pelo que ela gosta.

Ah, já ia me esquecendo… O blog anda desatualizado, eu sei, mas continuo ativa no Tumblr. Não posto nada decente lá, apenas reblogo como se não houvesse amanhã. Quer dar uma olhada? Eu sei que não, mas não custa nada colocar o link aqui!

Aliás, faço aniversário na próxima quarta-feira, dia 9. Aceito pães de queijo, seus mal-agradecidos.